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30/10/2018

ELSA-BRASIL celebra os 10 anos de atividades com 229 artigos publicados, retratando aspectos fundamentais da saúde dos brasileiros adultos

O consumo de alimentos ultraprocessados está diretamente associado à proporção do índice de massa corporal, da circunferência abdominal e à presença da obesidade, um dos principais fatores de risco para o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). A informação decorre de evidência científica obtida a partir do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA- Brasil), que completou 10 anos de atividades nesta semana, com celebrações e homenagens realizadas em seis capitais de estados brasileiros, onde estão sediadas as unidades do estudo.

De acordo com o artigo "Consumption of ultra-processed food and obesity: cross sectional results from the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil) cohort (2008–2010)", publicado no primeiro semestre deste ano pelo periódico Public Health Nutrition, os ultraprocessados representam 22,7% do consumo total de energia entre participantes incluídos no estudo. O ELSA-Brasil é uma coorte multicêntrica que compreende 15.105 adultos com idades entre 35 e 74 anos anos, residentes em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Bahia. Isso significa que, de acordo com amostragem do estudo, quase um quarto dos alimentos que os brasileiros comem pode não fazer bem à saúde.

Para o pesquisador do INCT IATS, Bruce Duncan (foto, à direita), um dos coordenadores do estudo na unidade vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o ELSA-Brasil confirma em evidências que o cuidado com o comportamento alimentar é uma questão fundamental para a proteção da saúde. "Estamos vivendo um momento diferente do que havia no Brasil até três décadas, quando as doenças infecciosas e as enfermidades materno-infantis eram as grandes preocupações em saúde pública. Atualmente, a principal carga de morbimortalidade está concentrada nas doenças crônicas não transmissíveis", assinala.

Segundo Duncan, as DCNTs representam mais de 70% da carga de doenças no país, o que exige uma abordagem consistente em políticas públicas para prevenção. "Fatores de risco como obesidade, dieta inadequada, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, hipertensão, hiperglicemia e falta de atividade física precisam ser enfrentados, pois eles são responsáveis pela alta prevalência de males como diabetes, cânceres, doenças cardiovasculares em suas diversas manifestações, doenças renal e obstrutiva pulmonar. Estas enfermidades representam uma grande carga socioeconômica, pois incapacitam, rebaixam a qualidade e reduzem o tempo de vida das pessoas, provocando impacto nos sistemas de saúde e na sociedade", descreve.

O ELSA-Brasil, no Rio Grande do Sul, tem a coordenação-geral da Professora Doutora Maria Inês Schmidt (foto, ao lado de Bruce Duncan), cientista recém agraciada com a Ordem Nacional do Mérito Científico.

 

 

ELSA-BRASIL CELEBRA 10 ANOS EM SOLENIDADE NA SEMANA CIENTÍFICA DO HCPA

A passagem dos 10 anos de atividades do Elsa-Brasil foi celebrada pela comunidade científica gaúcha e pelos participantes do estudo durante as atividades da 38ª Semana Científica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Na solenidade, a diretora-presidente do HCPA, Professora Doutora Nadine Clausell, declarou que o Elsa-Brasil é o exemplo de iniciativa em pesquisa que reúne as mais elevadas qualidades, com contribuição importante para a sociedade, tanto pela produção de evidências científicas, quanto pela formação de pesquisadores em diversos níveis.

"O Elsa nos orgulha por sua relevância e robustez. Vem sendo conduzido por dois pesquisadores que estão entre os cientistas mais respeitados do Brasil. O projeto atravessou diferentes gestões e deve ser preservado pelo próximo governo, que precisa saber que este é o exemplo de investimento em pesquisa que dá certo, que qualifica a gestão, os serviços de saúde e a vida da população", afirmou Nadine Clausell.

Para o reitor da UFRGS, Professor Doutor Ruy Opermann, a produção científica do ELSA-Brasil constituiu em dez anos um conjunto de informações imprescindível à gestão da saúde no Brasil. "Na perspectiva da epidemiologia, quanto melhor a qualidade da informação, melhores serão a gestão e os resultados para a saúde pública", observou. "Além da produção científica destacada, é preciso também reconhecer a formação de recursos humanos para o desenvolvimento científico do país", complementou.

Opermann sustentou que o projeto precisa ter seu prosseguimento garantido pelas futuras administrações, eleitas no último domingo. "Um projeto desta magnitude e importância estratégica para o país precisa ter seu financiamento assegurado. O ELSA-Brasil é o exemplo prefeito de uma ação pública que desmistifica a falácia de que há ineficiência na atividade administrada pelo setor público, aqui representado pela Faculdade de Medicina da UFRGS, pelo HCPA e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Minsitério da Saúde", concluiu.

Em depoimento, o professor de matemática Celso Toledo, participante incluído no estudo e acompanhado desde o primeiro ano de atividade, contou que a convivência com os pesquisadores o estimulou a adquirir hábitos saudáveis como caminhar regularmente e selecionar os alimentos de seu consumo. "Renovei meu estilo de vida. Não tem melhor sentimento do que saber que a nossa saúde está boa e a gente pode olhar a vida lá na frente", disse o aposentado de 75 anos.

 

EM 229 ARTIGOS PUBLICADOS, ELSA-BRASIL TRAÇA UM MAPA PARA A SAÚDE PÚBLICA DO BRASIL

O projeto ELSA-Brasil apresenta os números expressivos de sua capacidade produtiva no website (elsabrasil.org), onde é possível verificar dados como a geração de 120 Dissertações de Mestrado, 112 Teses de Doutorado e 30 Teses de Pós-doutorado. Ao longo destes primeiros 10 anos de atividades, o projeto ofertou trabalho a 945 bolsistas de pesquisa, oriundos de diversas universidades, além de ter propiciado 323 estágios e 50 bolsas para iniciação científica.

Contudo, uma dos mais significativos registros se refere à publicação de artigos. Foram 229 papers com as mais diversas abordagens possíveis dentro da amplitude de dados que compõem o projeto, exibindo um importante retrato da saúde da população brasileira adulta. Todos os artigos estão disponíveis para leitura de pesquisadores e gestores no link para o PubMed.

 

Reportagem e edição: Luiz Sérgio Dibe