Características clínicas e desfechos da infecção por SARS-CoV-2 manifestada em hospitais no Brasil

Resenha do artigo:

Delfino-Pereira P, Pires MC, Gomes VMR, et al. Clinical characteristics and outcomes of hospital-manifested COVID-19 among Brazilians [published online ahead of print, 2023 Feb 20]. Int J Infect Dis. 2023;S1201-9712(23)00059-0. doi:10.1016/j.ijid.2023.02.012

A pandemia desencadeada pela doença por coronavírus-19 (covid-19) inviabilizou inúmeros atendimentos médicos de rotina e não emergenciais, especialmente pelos sistemas sobrecarregados e saturados, mas também pelo receio da infecção intra-hospitalar. Apesar de uma compreensão crescente do covid-19, estabelecer se uma infecção é adquirida no hospital continua sendo um desafio. Para SARS-CoV-2, as infecções adquiridas no hospital são frequentemente definidas pela avaliação clínica do momento da admissão e do primeiro teste positivo ou início dos sintomas. Como o período de incubação é muito variável e o momento exato da infecção é desconhecido, estudar os pacientes que manifestaram a covid-19 durante a internação é fundamental, sendo escassos os estudos sobre o tema. Além disso, faltam dados da prevalência desta condição e seu prognóstico em pacientes latino-americanos.

Assim, este estudo teve como objetivo comparar as características clínicas e os desfechos de pacientes que manifestaram covid-19 intra-hospitalar, com aqueles hospitalizados pela doença, e identificar os fatores de risco para mortalidade intra-hospitalar na primeira população.

Trata-se de uma coorte multicêntrica retrospectiva, com dados de pacientes adultos com covid-19 confirmada, internados em 34 hospitais, entre março e setembro de 2020. Foram incluídos neste estudo pacientes internados por outras causas, que manifestaram covid-19 em qualquer momento da internação, e um grupo controle selecionado por pareamento com escore de propensão, que considerou sexo, idade, número de comorbidades e hospital de origem. Modelos de regressão logística foram utilizados para verificar os fatores de risco para a mortalidade, nos pacientes que manifestaram covid-19 intra-hospitalar.

Entre os 7.710 pacientes incluídos no estudo, 537 (7,2%) manifestaram covid-19 intra-hospitalar. As causas mais comuns de internação foram doenças cardiovasculares (20,0%), avaliação propedêutica (19,5%), doenças gastrointestinais (10,0%) e procedimentos (10,0%). O grupo de estudo apresentou maior prevalência de câncer (19,2% vs. 10,8%), alcoolismo (8,8% vs. 2,8%), doença renal crônica (3,5% vs. 1,7% e cirrose (2,6% vs. 0,9%). Além disso, os pacientes deste grupo apresentaram uma maior taxa de mortalidade (35,8% vs. 22,5%), maior admissão na unidade de terapia intensiva (UTI) (45,1% vs. 35,2%), além da maior incidência de sepse (23,8% vs. 14,5%) e hemorragia (4,1% vs. 1,5%), comparados ao grupo controle (p<0,05 para todas as análises). Idade avançada (OR 1,04, IC 95% 1,02-1,05), número de comorbidades (OR 1,34, IC 95% 1,1-1,64), sexo masculino (OR 1,51, IC 95% 1,01-2,27) e a presença de câncer (OR 2,34, 95% CI 1,33-4,15) mostraram-se como preditores independentes de mortalidade hospitalar no grupo de estudo.

Em conclusão, pacientes que manifestaram covid-19 intra-hospitalar apresentaram maior frequência de admissão na UTI, além de maior incidência de sepse, hemorragia e morte intra-hospitalar. Idade avançada, sexo masculino, número de comorbidades e câncer foram os principais fatores de risco para mortalidade nesta população.

Elaborada por
Polianna Delfino Pereira
Milena Soriano Marcolino
Data da Resenha
07/03/2023
Eixo Temático
Doenças Infecciosas e Tropicais
Eixo Metodológico
Pesquisas Epidemiológicas
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